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    Fraude, ciência e ética

    No dia 4 de julho, o jornal “O Estado de S.Paulo” revelou que a dra. Lilian Eça – inspiração para o então procurador-geral Claudio Fonteles abrir uma ação de inconstitucionalidade contra as pesquisas com células-tronco embrionárias (CTE) – teria fraudado seu próprio currículo.

    Alguns pontos do caso merecem ser comentados.

    A dra. Cláudia Batista (pesquisadora contra as pesquisas com CTE), a fim de defender a acusada, fala: “não precisa estar trabalhando na bancada para opinar, basta ter uma boa formação”.

    De fato, conheço vários jornalistas que estão mais bem preparados para discutir assuntos científicos do que biólogos, biomédicos ou médicos. Entretanto, é fundamental que seus argumentos estejam baseados em artigos científicos já comprovados, ou em especialistas reconhecidos pela comunidade científica.

    Infelizmente esse não é o caso.

    Em artigo redigido pela dra. Lilian e publicado em 8 de junho de 2005 na “Folha de S.Paulo”, intitulado “A verdade sobre as células tronco embrionárias”, ela faz algumas afirmações que demonstram total desconhecimento do assunto.

    Por exemplo:

    - “Ocorrem metilações no DNA dos embriões congelados, aumentando o risco de silenciarem genes e, portanto, não servem para pesquisa” - afirma ela.

    Ora! Se não servem nem para pesquisa, que dirá para serem implantados? E o risco de gerarem fetos anormais ou crianças com doenças graves?

    - “Cada blastocisto fornece entre 100 e 154 CTE. Assim, é preciso saber quantos embriões humanos frescos deveriam ser sacrificados em tal terapia” - questiona a “pesquisadora”.

    Essa ponderação demonstra que a dra. Lilian parece desconhecer um processo denominado mitose, ou seja, a divisão celular. Através da mitose, as CTE têm justamente o potencial de se auto-renovar por inúmeras gerações. Dessa maneira, a partir de uma linhagem de CTE é possível obter um número infinito de células.

    - “Feeder layers são camadas de tecidos retiradas de fetos vivos de qualquer estágio, vendidas em dólares nos Estados Unidos, as quais estão sendo utilizadas para garantir a qualidade do cultivo das CTE” – acusa Lilian.

    Na verdade, o grande problema das linhagens de CTE é exatamente o contrário! Elas foram cultivadas com feeder layers (tapetes de células) de camundongos. Aliás, esse é um dos motivos para torná-las inviáveis para ensaios clínicos em seres humanos.

    Diz ainda a dra. Cláudia Batista: “O que vale muito mais do que o currículo é a pessoa ter noção ética do que está fazendo”.

    Pergunto: é ético fraudar o currículo?

    Um dos argumentos usados pelos defensores de embriões congelados na audiência no STF é que só foram obtidos resultados com células-tronco adultas.

    Na revista “Science” de 8 de junho de 2007 (pág. 1422-23), Smith e colaboradores desmentem um artigo anterior de Prentice e Tarne (de 19 de janeiro de 2007, p.328), segundo o qual mais de 65 doenças já foram tratadas com células-tronco adultas.

    Esses dois autores acabam de se retratar, pois o que na realidade queriam dizer é que a eficiência dessas células está sendo (ainda) testada nessas 65 doenças -- o que, infelizmente, é muito diferente de tratá-las.

    Smith e colegas terminam seu artigo enfatizando: “Aqueles que repetem as declarações de Prentice estão enganando as pessoas e decepcionando cruelmente os pacientes.”

    Finalmente, cabe ressaltar que nenhum dos pesquisadores que defende as pesquisas com células-tronco embrionárias é contra as pesquisas com células-tronco adultas, muito pelo contrário. Estamos lutando pelo direito de pesquisar todas as possibilidades. Pois o que não podemos é perder tempo, frente ao relógio da vida.

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