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    A agressividade é genética?

    Você está dirigindo seu carro e alguém corta sua frente sem fazer sinal nenhum. Você: a)é daqueles que diz “Ah! Deixa para lá”; b)buzina, para mostrar sua irritação; ou c)fica totalmente enfurecido e, se pudesse, enfiaria uma jamanta tripla no carro que te ultrapassou? Bem, se você escolheu a última opção, não se sinta culpado.

    Uma pesquisa recente (maio/2007, publicada na revista científica “Nature Genetics”) realizada com a mosca Drosophila (a mosca-das-frutas) por dois pesquisadores americanos (Dierick e Greenspan) pode nos ajudar a entender as suas reações. Pois o que eles demonstram é a possibilidade de controlar o comportamento mais ou menos agressivo desses insetos através da administração ou inibição de dois neurotransmissores: a serotonina (5-HT) e o neuropeptídeo F (NPF).

    Trabalhos anteriores já haviam sugerido que a serotonina tem um papel importante na modulação do comportamento em outros modelos animais. Contudo, isso nunca havia sido demonstrado em moscas-das-frutas. Com isso, esses autores mostraram pela primeira vez que, nesses insetos, não só a serotonina como também o NPF agem na agressividade – cada um através de uma via independente.

    Como Dierick e Greenspan evidenciaram o papel dessas duas importantes substâncias no comportamento de tais insetos?

    Por meio de uma manipulação farmacológica, eles verificaram que, quando aumentava ou diminuía a síntese de 5-HT, as moscas se tornavam mais agressivas ou menos agressivas, respectivamente. O NPF, ao contrário, tem o papel de inibir a agressividade: quanto maior a quantidade dessa substância, menos agressivo será o comportamento.

    Outra observação muito interessante é que os machos diferem das fêmeas. É isso mesmo, caro leitor! Isso não ocorre só com os homens: os “drosófilos” são naturalmente mais agressivos que as “drosófilas”.

    Ao manusear a expressão de NPF, os pesquisadores conseguiram fazer com que machos se comportassem como fêmeas. E ainda mais: a partir do manejo dessa substância, os machos alternavam sua conduta, passando de agressivos (quando outro macho aparecia no seu território) a machos “conquistadores”, quando fêmeas eram colocadas no seu território.

    No meio científico, não é novidade que a serotonina modula o comportamento em vários modelos animais, desde invertebrados como a lagosta até mamíferos como camundongos.

    Se pensarmos que ser agressivo no reino animal é essencial para a sobrevivência, entendemos facilmente que os genes responsáveis por um comportamento mais rude devem ter sido selecionados e transmitidos à descendência. Contudo, o que tem isso a ver com você, caro leitor?

    Muitas vezes a sociedade condena a brutalidade. Louva-se a paciência e a resignação. Ou, dependendo da situação, criticam exatamente o contrário: fulano devia ser mais agressivo!

    Por outro lado, a sociedade entende perfeitamente a necessidade de uma pessoa com diabetes tomar insulina, mas geralmente não tem boa vontade com indivíduos impacientes e violentos.

    Enfim, o trabalho de Dierick e Greenspan comprova que o comportamento, no reino animal, é regulado por substâncias que podem ser secretados em maior ou menor quantidade, de acordo com os nossos genes, independentemente da nossa vontade.

    Será que em um futuro próximo conseguiremos controlar as emoções, administrando ou inibindo substâncias como a serotonina e o NPF?

    Fico imaginando quantas mulheres adorariam poder transformar seus companheiros e fazê-los passar de agressores a cortejadores...

    E você, caro leitor? Depois de ler essa coluna, você teria mais compreensão com uma pessoa, seu vizinho ou companheiro(a), se souber que ele “chuta o balde” muito mais do que você porque secreta muita serotonina ou pouco NPF?

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