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Questionamentos versus certezas
Há alguns anos, Francis Collins abriu o Congresso da Sociedade Americana de Genética Humana (um evento que reúne milhares de cientistas todos os anos) pedindo desculpas ao público presente. Por que Collins (um dos maiores geneticistas da atualidade, responsável pela coordenação do Projeto Genoma Humano pelos NIH, Institutos Nacionais de Saúde dos EUA, estava pedindo perdão?
Pois acabava de retirar um trabalho aparentemente muito importante sobre câncer, publicado em conjunto com um jovem aluno seu, em uma revista de grande impacto, após receber duras críticas de outros pesquisadores que não conseguiam reproduzi-lo.
Como o dr. Collins não havia feito o trabalho de bancada, ele foi questionar seu aluno sobre a parte laboratorial do experimento, quando ouviu, estupefato, o rapaz lhe dizer: “Dr. Collins, eu tinha tanta certeza acerca dos resultados dessa pesquisa que achei que não precisava fazer a parte experimental. Simplesmente publiquei os dados usando fotos ilustrativas.”
Ao contrário da religião, que determina aos seus fiéis que tenham fé e acreditem em seus dogmas e tradições sem questioná-los (apenas aplicando-os), em ciência nada pode ser aceito sem comprovação, sem experimentação, sem provas contundentes que possam ser reproduzidas por diferentes grupos.
Nasci com uma mente inquieta, em eterno questionamento -- um pré-requisito essencial para quem quer ser cientista... E posso afirmar (de maneira comprovada, experimentada e contundente) que é fascinante. Afinal, para cada questão que se responde, abre-se um leque de novas perguntas, um processo sem fim. É um eterno quebra-cabeças.
Não consigo imaginar como é acreditar cegamente, ter certezas refratárias a qualquer argumento. Imagino que deve ser como ir a um jogo de futebol ou a uma corrida de carros, sabendo de antemão quem vai ganhar. Deve ser muito sem-graça.
Na minha última coluna prometi que iria tentar explicar melhor o que são essas pesquisas com células híbridas, utilizando-se núcleos de células humanas e óvulos de coelha ou vaca, lembram-se?
Bem, se você, leitor, é daqueles que não questionam, não perca tempo em ler essa explicação. Nada que eu disser vai fazê-lo mudar de opinião. Escrevo para aqueles que ainda têm uma mente aberta, capaz de aceitar novos paradigmas e, somente após entendê-los, julgá-los -- para isso baseando-se em informações e conscientização sobre os avanços científicos.
Vamos lá: quando os cientistas Keith Campbell e Ian Wilmut anunciaram, em 1997, o nascimento da ovelha Dolly, demonstraram pela primeira vez que era possível, a partir de uma célula já diferenciada de um mamífero -- no caso, da glândula mamária -– produzir todos os tecidos do corpo.
Para aqueles que não se lembram, eles retiraram o núcleo da célula mamária da ovelha Dolly, transferiram-no para um óvulo do qual havia sido retirado o núcleo e inseriram-no em um útero de outra ovelha. Assim, depois de 277 tentativas, nasceu Dolly, o que comprovava definitivamente a hipótese desses cientistas. Portanto: se havia sido possível fazer um animal “novo” e “completo”, é claro que seria possível fabricar todos os tecidos a partir de uma célula já diferenciada.
Mas, imediatamente, começaram a surgir as grandes questões éticas: “E se essa técnica for usada para clonarem seres humanos, cópias de pessoas?”
Imaginemos agora que, em vez de produzir a ovelha Dolly, esses cientistas da Grã-Bretanha, tivessem se limitado a usar essa tecnologia somente para produzir tecidos em laboratório. Por um lado, não teriam causado a polêmica ética que se seguiu. Contudo, por outro, teriam sido necessários milhares de experimentos para que se conseguisse demonstrar que tal transferência (do núcleo de uma célula do nosso corpo para um óvulo sem núcleo) permitia produzir qualquer tecido.
Em resumo: essa técnica de transferência de núcleos, também chamada de clonagem terapêutica (quando na realidade deveria se chamar clonagem para pesquisas), não teria sido questionada, caso não tivesse surgido junto com a polêmica sobre Dolly e a possibilidade da clonagem reprodutiva humana.
E o que tem isso a ver com as células híbridas (ou embriões híbridos), como alguns insistem em chamá-los? Tudo a ver!
Como repetir a experiência da transferência de núcleos, para seres humanos? Quando parecia que pesquisadores sul-coreanos haviam conseguido, descobriu-se que os resultados do Dr. Hwang, alardeados no mundo todo, haviam sido fraudados.
O maior problema é que são necessários muitos óvulos para essas pesquisas -- e óvulos humanos são escassos e preciosos. Uma maneira de tornar essa pesquisa viável seria pela possibilidade de utilizar óvulos de coelhas ou vacas. E é essa a permissão que os cientistas britânicos estão pedindo.
Em primeiro lugar, isso vai permitir o treino de uma tecnologia extremamente sofisticada de se transferir o núcleo de uma célula do corpo humano para um óvulo sem núcleo, sem se preocupar com a destruição do material biológico. Uma vez conseguido o estabelecimento de linhagens celulares, será possível investigar que genes precisam ser ativados ou “silenciados” para se produzir o tecido que queremos.
Ou, ainda, a obtenção de linhagens de pessoas portadoras de doenças genéticas permitirá o estudo do mecanismo patológico desses genes e o efeito de diferentes drogas em diferentes tecidos, sem usar seres humanos como cobaias.
É lógico que essas células híbridas nunca serão transferidas para seres humanos, mas elas permitirão que se avance muito nas pesquisas, poupando um material precioso, que são os óvulos humanos. E aí eu pergunto: o que há de errado nisso?
A mente que se abre a uma nova idéia jamais volta ao seu tamanho original.
(Albert Einstein)