Pai da Dolly discute ciência brasileira
Na semana passada, recebemos no Centro de Estudos do Genoma Humano a visita do professor Keith Campbell. Quem o vê na foto ao lado, brincando com a cadela Lady, talvez não se dê conta da importância desse cientista.
Para quem não se lembra, ele foi responsável por uma experiência, publicada há dez anos, que revolucionou a medicina: foi o primeiro autor do trabalho que resultou na ovelha Dolly, o primeiro mamífero jamais clonado.
A importância do trabalho desenvolvido por esse pesquisador (que na época trabalhava no laboratório dirigido pelo professor Ian Wilmut) foi tão gigantesca que podemos dividir as pesquisas nessa área em dois períodos: antes e depois de Dolly.
Os trabalhos realizados nos últimos 10 anos, após a clonagem dessa famosa ovelha (que ocupa, desde a sua morte, um lugar de honra no museu britânico), permitiram o início de inúmeras pesquisas com células-tronco, o futuro da medicina regenerativa.
Mas qual é a exata relação entre a clonagem de Dolly e as células-tronco? – perguntarão vocês. Para chegarmos a essa resposta, meus caros leitores, precisamos recordar um pouco de embriologia.
Todos nós já fomos uma célula única, resultante da fusão de duas células sexuais: o óvulo (recebido de nossa mãe) e o espermatozóide (transmitido por nosso pai). O óvulo e o espermatozóide têm no seu núcleo o DNA, com toda a informação genética necessária para o novo ser. Logo, ele começa a se dividir: uma célula em duas, duas em quatro e assim por diante. Até a fase de 8-16 células, elas são chamadas de células-tronco totipotentes. Cada uma delas é capaz de originar um ser completo, se for inserida em um útero.
Quando o embrião atinge o estágio entre 32 e cento e poucas células (chamado nessa fase de blastocisto), suas células são capazes de formar todos os tecidos do corpo (que são 216 ao todo), mas não mais um ser completo. São chamadas células-tronco pluripotentes.
Aos poucos, conforme o embrião vai se dividindo, elas vão se diferenciando nos diferentes tecidos do nosso corpo: músculos, ossos, fígado, rins etc. Contudo, o mecanismo que determina “quem vai ser o quê” ainda é uma incógnita. Que ordem a célula recebe para se diferenciar em fígado e não rim, por exemplo?
Seguramente sabemos que, uma vez diferenciadas, as células daquele tecido só vão formar células iguais a elas. Ainda bem, não? Imagine a confusão que seria se células do fígado começassem a se diferenciar em osso, por exemplo?
Após essa breve pincelada sobre embriologia, voltemos então à nossa figura principal nessa coluna: Dolly. A grande contribuição de sua clonagem foi justamente a descoberta de que uma célula de um mamífero já diferenciada (no caso, da glândula mamária) poderia ser “reprogramada” ao estágio inicial e voltar a ser totipotente. Isto é, formar um novo ser completo.
Os cientistas da Grã-Bretanha realizaram isso ao transferirem o núcleo de uma célula da glândula mamária de uma ovelha para um óvulo enucleado (ou seja, de onde tinham retirado o núcleo). Dessa maneira, “enganaram“ o óvulo, que começou a se comportar como se tivesse sido fecundado por um espermatozóide. Então, para a obtenção de um clone, o óvulo para o qual os cientistas transferiram o núcleo da célula mamária foi inserido no útero de uma outra ovelha. Não foi um processo fácil. Dolly só nasceu depois de 276 tentativas fracassadas.
Tentativas posteriores de clonagem em outros mamíferos (camundongos, porcos, bezerros, cavalo, veado, gato e um cachorro) demonstraram uma eficiência muito baixa, com uma proporção muito grande de abortos e embriões malformados. Inegavelmente, essas experiências recentes -- em diferentes modelos animais -- têm comprovado que originar um clone é extremamente difícil.
A questão crucial, iniciada a partir de Dolly, continua: e se quiserem clonar seres humanos?
É uma idéia rejeitada por todos os cientistas. Em relação a seres humanos, os únicos clones naturais são os gêmeos idênticos, que se originam da divisão de um mesmo óvulo fertilizado.
Na verdade, a grande revolução da Dolly foi abrir a possibilidade de poder fabricar qualquer tecido a partir de células-tronco. O passo seguinte, que está sendo pesquisado por inúmeros cientistas é: mas quais células-tronco?
As células-tronco dos embriões, logo no início do desenvolvimento, têm esse potencial. Sabemos também que existem células-tronco adultas em vários tecidos, como no cordão umbilical, placenta, medula óssea – e que essas células têm a capacidade de formar alguns tecidos, mas não todos. Por isso é fundamental pesquisar as células-tronco embrionárias. Elas podem ser capazes de nos ensinar como “reprogramar” as células-tronco adultas, para que venham a formar o tecido que queremos. E no futuro tratar inúmeras doenças que dependem da substituição de tecidos.
Foi exatamente com essa finalidade que convidamos o prof. Campbell a visitar o Centro de Estudos do Genoma Humano.
Durante três dias, tivemos a oportunidade de discutir as pesquisas que estamos realizando e receber desse cientista brilhante (certamente merecedor do prêmio Nobel) conselhos e sugestões.
Analisar nossos resultados com cientistas com a experiência do prof. Campbell é extremamente importante para avaliarmos se estamos no caminho certo. Infelizmente a ciência não caminha na velocidade que queremos. Por isso, precisamos ter certeza de que estamos tentando o melhor.