Células-tronco no líquido amnióticoJornais do mundo inteiro noticiaram em 08 de janeiro a descoberta de uma nova fonte de células-tronco: o líquido amniótico. O trabalho foi publicado na revista "Nature Biotechnology" por um grupo de pesquisadores americanos. E logo começaram a surgir novas questões.
Quão surpreendente foi essa descoberta? Para quem trabalha com células-tronco (CT), esse achado não foi nenhuma surpresa. O líquido amniótico, que circunda o feto, é obtido através de uma punção transabdominal por uma técnica chamada “amniocentese”, quando o feto tem entre 16 e 20 semanas de gestação (ver figura).

Esse líquido contêm células fetais, que são isoladas para estudos genéticos em casos de indicações muito específicas de diagnóstico pré-natal. Portanto, por que não esperar que nesse líquido também houvesse células-tronco liberadas pelos tecidos fetais?
Essa abordagem para obtenção de CT a partir do líquido amniótico poderá substituir a técnica que envolve a destruição de embriões?
São abordagens diferentes. As CT fetais que esses pesquisadores obtiveram do líquido amniótico aparentemente têm um potencial intermediário entre as embrionárias e as adultas. Eles verificaram que aproximadamente 1% das células retiradas do líquido amniótico, que chamaram de “AFS” (células do fluido amniótico, na sigla inglesa), expressavam (ou seja, produziam) um marcador característico de CT (CD117). (Tais marcadores são substâncias que definem o funcionamento de determinado tipo de célula. Células musculares têm marcadores diferentes dos de células nervosas, por exemplo.)
A partir delas, conseguiram derivar várias linhagens com potencial para formar os seguintes tecidos: adiposo (de gordura), ósseo, muscular, hepático (do fígado) e nervoso. Entretanto, os próprios pesquisadores reconhecem que não sabem qual é o potencial das células AFS para formar outros tecidos, ao contrário das CT embrionárias, que sabidamente conseguem formar todos os 216 tecidos do corpo humano.
Alguma outra técnica alternativa, como extração de CTs de medula óssea, por exemplo, chega a ser tão promissora quanto essa?
As CTs da medula óssea têm um potencial muito mais limitado de formar tecidos. Além disso, no caso de auto-transplante (quando retiram-se células da própria pessoa na tentativa de formar um novo tecido, como o cardíaco por exemplo), tem-se a limitação de que essa técnica não serviria para portadores de doenças genéticas (já que todas as células têm o mesmo defeito genético no seu DNA).
Desenvolver essas técnicas alternativas é realmente necessário? Não seria mais viável conscientizar a opinião publica e convencer governos do mundo todo a liberar o uso de células de embriões descartados?
É mais do que necessário. O ideal será, no futuro, trabalhar com células-tronco adultas, e aprender como fazê-las ter o mesmo potencial que as embrionárias. É o que estamos fazendo no Centro de Estudos do Genoma Humano, que dirijo.
Em colaboração com vários grupos, estamos pesquisando células-tronco adultas retiradas de tecido adiposo, cordão umbilical e polpa dentária com resultados muito promissores. Não sabemos, porém, se elas têm o mesmo potencial que as obtidas recentemente do líquido amniótico.
Entretanto, é importante lembrar que a amniocentese, pela qual é obtido o líquido amniótico, não é um procedimento de rotina e só é indicada na gestação em casos de alto risco genético, e para algumas doenças. Além disso, ela só é feita quando o exame de vilosidades coriônicas (o teste de rotina de diagnóstico pré-natal, que é realizado mais precocemente e permite resultados muito mais rápidos) não é possível ou conclusivo.
A vantagem de utilizar embriões sobressalentes das clínicas de fertilização é que eles são normalmente descartados após alguns anos, quando podem ser preciosos para as pesquisas. Porém, do mesmo modo que o líquido amniótico, nunca os teremos em grande quantidade.
Os autores também propõem a criação de bancos de CT obtidas de líquido amniótico. É uma boa idéia?
Sempre defendi a criação de bancos públicos de células-tronco. O ideal seria termos várias fontes alternativas: bancos de cordão umbilical, de polpa dentária (obtidas principalmente de dentes de leite), de células-tronco embrionárias, e agora também de líquido amniótico. Nesse último caso, entretanto, as CT só seriam obtidas e armazenadas em um banco quando o líquido amniótico fosse uma “sobra” a ser descartada após um procedimento de amniocentese, indicado para um diagnóstico pré-natal.