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    Os bispos e os embriões híbridos

    Nas minhas colunas de 25/5 e 8/6, comentei a respeito da polêmica dos embriões híbridos. Se você não se lembra, a proposta é de transferir o núcleo de células humanas já diferenciadas (da pele, por exemplo) para óvulos sem núcleo, a chamada clonagem terapêutica. Se bem-sucedida, essa transferência permitiria a uma célula adulta voltar ao estágio de célula-tronco embrionária (CTE) e produzir qualquer tecido.

    Entretanto, como a técnica é muito difícil e óvulos humanos são escassos, cientistas ingleses propõem que se use óvulos de animais: células germinativas de vacas ou coelhos vazias, isto é, sem núcleo. Sabe-se que 99% do DNA está no núcleo, enquanto no citoplasma (que circunda o núcleo) temos apenas cerca de 1%, localizado em estruturas denominadas mitocôndrias, que são fornecedoras de energia para as células.

    A geração de células híbridas com núcleo humano e óvulos (sem núcleo) de animais poderia nos ensinar como formar os tecidos que queremos e nos auxiliar a compreender o funcionamento de genes importantes para saúde e para o desenvolvimento científico em geral. Seria uma alternativa para se obter linhagens celulares de pessoas com doenças como Parkinson ou doenças neuromusculares, e testar drogas em culturas, antes de fazer intervenções em humanos.

    Terminei minha coluna de 8/6 dizendo: “É lógico que essas células híbridas nunca serão transferidas para seres humanos, mas elas permitirão que se avance muito nas pesquisas, poupando um material precioso, que são os óvulos humanos. E aí eu perguntei: o que há de errado nisso?”

    Imaginei que haveria uma forte reação em relação a essas reflexões e teríamos perguntas como: “E se tivermos monstros metade homem, metade vaca? Quem garante que esses embriões híbridos não serão transferidos para um útero humano? Ou útero de uma vaca ou coelha? Será que essa técnica não será usada para se fazer clonagem reprodutiva (ou seja, clones humanos)?”

    Pois, caros leitores, pasmem! Em uma reportagem publicada em 27 de junho passado no site “O Globo Online” encontramos o seguinte título: “Bispos católicos defendem direitos humanos de embrião híbrido”!

    Li e reli essa coluna várias vezes, sem acreditar em que eu estava lendo. De acordo com essa notícia, os bispos católicos da Inglaterra e do País de Gales querem que as mulheres tenham o direito de gestar esses embriões híbridos, já que são mais de 99% humanos, argumentam eles.

    Ora se a clonagem reprodutiva, que originou a ovelha Dolly, demonstrou que existe um risco gigantesco de formarem-se embriões anormais quando são usados óvulos da mesma espécie, que dirá uma quimera com núcleo humano e citoplasma animal?

    Será que os bispos entenderam realmente do que se trata? E refletiram sobre o teor da divulgação que fizeram?

    Caso não, ainda resta uma esperança. Talvez tenham uma posição contra as pesquisas com células embrionárias derivadas de embriões congelados, porque não compreenderam que eles nunca serão pessoas -- porque são inviáveis biologicamente, ou porque nunca serão transferidos para um útero (por vontade expressa de seus genitores).

    Estou convencida de que, no dia onde as pesquisas com células embrionárias nos ensinarem a curar doenças hoje incuráveis, todos aceitarão.

    A famosa cientista Marie-Curie (1867-1934) dizia: “Nothing in life is to be feared. It is only to be understood.” Ou, em português: “Nada na vida deve ser temido. Só deve ser compreendido.”

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